Intolerância à Histamina Uma Abordagem Sistêmica



Dr. João Ricardo M. Gonçalves



Diretor Laboratório João Paulo



Intolerância à Histamina: Uma



Perspectiva Bioquímica e Clínica para o Médico



A histamina, uma amina biogênica amplamente distribuída no organismo,



desempenha um papel multifacetado na fisiologia humana. Embora seja mais conhecida por seu papel nas reações alérgicas, sua atuação vai muito além, influenciando processos imunes, neurológicos, gastrointestinais e

cardiovasculares. A compreensão de sua complexa metabolização e dos



desequilíbrios que podem surgir, como a resistência ou intolerância à histamina, é crucial para uma abordagem diagnóstica e terapêutica mais precisa em diversas condições clínicas. Este artigo visa aprofundar os conhecimentos dos

profissionais médicos sobre a bioquímica da histamina, as causas e



consequências de sua disfunção metabólica, e as ferramentas diagnósticas disponíveis para identificar essa condição frequentemente subestimada.

A Histamina: Um Mensageiro Multifuncional



A histamina é sintetizada a partir do aminoácido L-histidina pela enzima histidina descarboxilase (HDC). Uma vez sintetizada, ela é armazenada principalmente em grânulos de mastócitos e basófilos, mas também é encontrada em plaquetas, neurônios histaminérgicos e células enterocromafins no trato gastrointestinal.

Sua liberação ocorre em resposta a diversos estímulos, incluindo alérgenos, patógenos, neurotransmissores e certos medicamentos.

Os efeitos da histamina são mediados por sua ligação a quatro tipos de receptores específicos (H1, H2, H3 e H4), acoplados a proteínas G, que se encontram em

diferentes tecidos e desencadeiam distintas vias de sinalização intracelular:



Receptores H1 (RH1): Amplamente distribuídos em músculo liso (brônquios, vasos sanguíneos, intestino), células endoteliais e neurônios. Sua ativação leva a broncoconstrição, vasodilatação, aumento da permeabilidade vascular, prurido e

dor. A sinalização via RH1 envolve a ativação da fosfolipase C (PLC) e o aumento dos níveis intracelulares de inositol trifosfato (IP3) e diacilglicerol (DAG), resultando na liberação de cálcio do retículo endoplasmático.

Receptores H2 (RH2): Predominantes nas células parietais gástricas, onde estimulam a secreção de ácido clorídrico. Também presentes no coração, células imunes e músculo liso vascular. A ativação de RH2 estimula a adenilato ciclase, elevando os níveis de AMP cíclico (AMPc) intracelular.

Receptores H3 (RH3): Encontrados principalmente no sistema nervoso central, atuando como auto e heterorreceptores, regulando a síntese e liberação de histamina e outros neurotransmissores. A ativação de RH3 tipicamente inibe a adenilato ciclase.

Receptores H4 (RH4): Localizados principalmente em células do sistema imune (eosinófilos, neutrófilos, células T, mastócitos), desempenhando um papel crucial na modulação da resposta inflamatória e alérgica. A sinalização via RH4 também envolve a inibição da adenilato ciclase e a mobilização de cálcio.

Processos Metabólicos da Histamina e Sua Importância



A eliminação da histamina do organismo é um processo finamente regulado, essencial para prevenir a acumulação e a toxicidade. Duas vias enzimáticas principais são responsáveis pela inativação da histamina:

Metilação pela Histamina-N-Metiltransferase (HNMT): Esta enzima, citosólica e amplamente distribuída em tecidos como rins, fígado, brônquios e sistema nervoso central, catalisa a metilação do anel imidazólico da histamina, formando a N-metilhistamina. A HNMT utiliza S-adenosilmetionina (SAM) como doador de grupos metil. A N-metilhistamina é então oxidada a N-metilimidazol ácido acético pela monoamina oxidase B (MAO-B) e aldeído desidrogenase (ALDH).

Daminoxidação pela Diamina Oxidase (DAO): Também conhecida como histaminase, a DAO é uma enzima extra-celular, presente principalmente na

mucosa intestinal (especialmente no intestino delgado e cólon), rins e placenta. Sua principal função é a degradação da histamina exógena (proveniente da dieta ou da disbiose intestinal) e da histamina liberada de mastócitos no lúmen intestinal. A DAO catalisa a desaminação oxidativa da histamina, convertendo-a em imidazol acetaldeído, que é subsequentemente oxidado a ácido imidazol acético. Ao contrário da HNMT, a DAO tem uma ampla especificidade de

substrato, degradando outras diaminas como putrescina e cadaverina.



A integridade dessas vias metabólicas é fundamental para manter os níveis de histamina dentro de limites fisiológicos. Um desequilíbrio entre a

produção/liberação e a degradação da histamina pode levar à sua acumulação, resultando em uma ampla gama de sintomas.

Sintomas e Manifestações Clínicas da Intolerância à Histamina



A intolerância à histamina (IH) não é uma alergia, mas sim uma disfunção no



equilíbrio entre a histamina produzida/ingerida e a capacidade do organismo de degradá-la. Isso leva a um acúmulo excessivo de histamina em diversos tecidos, mimetizando uma reação alérgica e desencadeando uma ampla variedade de

sintomas inespecíficos, o que torna o diagnóstico desafiador. Os sintomas podem variar em intensidade e apresentação de pessoa para pessoa, e frequentemente

pioram após a ingestão de alimentos ricos em histamina ou liberadores de histamina.



Os sistemas mais afetados incluem:



Sistema Gastrointestinal: Um dos mais comumente afetados, dada a alta concentração de DAO no intestino. Sintomas incluem náuseas, vômitos, dor abdominal, diarreia, constipação, inchaço, síndrome do intestino irritável (SII) e refluxo gastroesofágico.

Pele: Reações cutâneas são frequentes, como urticária crônica, angioedema, prurido intenso, eritema, eczema e rubor facial.

Sistema Respiratório: Pode manifestar-se como rinite (espirros, coriza, congestão nasal), asma (principalmente tosse e broncoespasmo), e dificuldade para respirar.

Sistema Cardiovascular: Sintomas como palpitações, taquicardia, arritmias, hipotensão ou hipertensão postural, e até mesmo dor no peito podem ocorrer.

Sistema Nervoso Central: Pacientes podem relatar dores de cabeça



(especialmente enxaquecas), tontura, vertigem, fadiga crônica, insônia, ansiedade, irritabilidade e dificuldade de concentração.

Outros Sintomas: Cãibras musculares, dores musculares e articulares,



dismenorreia, inchaço generalizado e boca seca também podem estar presentes.



A natureza inespecífica e multissistêmica dos sintomas da IH muitas vezes leva a diagnósticos equivocados, como fibromialgia, SII, enxaqueca crônica ou alergias alimentares atípicas. É fundamental que o médico considere a IH no diagnóstico diferencial de pacientes com sintomas crônicos e refratários ao tratamento convencional.

Exames Bioquímicos para Avaliação da Disfunção de Histamina



O diagnóstico da intolerância à histamina é complexo e, até o momento, não existe um exame único e definitivo. A combinação da anamnese detalhada

(incluindo histórico alimentar e resposta a dietas de eliminação) com exames laboratoriais pode auxiliar no processo. É importante ressaltar que os valores de referência podem variar entre laboratórios, e a interpretação deve ser feita no contexto clínico do paciente.

Sangue:



Níveis de Diamina Oxidase (DAO) sérica: É o exame mais comumente utilizado. Níveis reduzidos de DAO sérica (<10 U/mL ou valores abaixo do limite

inferior de referência do laboratório) são indicativos de uma capacidade diminuída de degradar a histamina exógena. No entanto, é crucial entender que a DAO sérica reflete a atividade da enzima circulante e nem sempre se correlaciona

perfeitamente com a atividade da DAO intestinal. Fatores como doenças inflamatórias intestinais, uso de certos medicamentos e gravidez podem influenciar os níveis de DAO.

Histamina plasmática: Medir a histamina plasmática basal pode ser útil, mas é um exame com limitações. Os níveis de histamina no plasma são altamente

variáveis, dependendo de fatores como dieta, estresse e liberação de mastócitos. Uma elevação persistente de histamina plasmática fora de um evento agudo (ex: anafilaxia) pode sugerir IH, mas um resultado normal não a exclui. A coleta deve ser feita com precaução para evitar a degradação da amostra.

N-metilhistamina plasmática: A N-metilhistamina é o principal metabólito da histamina degradado pela HNMT. Níveis elevados podem indicar um excesso de produção ou uma disfunção na via de degradação da HNMT. Este exame é menos comum e sua interpretação requer cautela.

Triptase sérica: Embora não seja um marcador direto de intolerância à



histamina, a triptase é um biomarcador de ativação e liberação de mediadores por mastócitos. Níveis elevados de triptase basal podem sugerir uma mastocitose sistêmica ou síndrome de ativação mastocitária (MCAS), condições que podem

mimetizar ou coexistir com a IH. A MCAS é uma causa importante de excesso de histamina.



Urina:



Ácido N-metilimidazol acético (N-MIAA) urinário: Este é o principal metabólito final da histamina após a ação da HNMT e MAO-B. A excreção urinária de N-MIAA em 24 horas pode fornecer uma visão da carga total de histamina e da eficiência

de sua metabolização pela via da HNMT. Níveis elevados podem indicar um aumento na produção de histamina ou uma sobrecarga do sistema.

Histamina urinária: Assim como no plasma, a dosagem de histamina na urina é menos específica devido à sua variabilidade. No entanto, em alguns casos, pode ser um indicador de alta carga de histamina.

Fezes:



Histamina fecal: A dosagem de histamina nas fezes pode ser útil para avaliar a produção de histamina pela microbiota intestinal. Certas bactérias intestinais são capazes de produzir histamina (e outras aminas biogênicas), contribuindo para a carga total de histamina no organismo. Níveis elevados podem indicar disbiose com predominância de bactérias produtoras de histamina.

Atividade de DAO fecal: Embora menos padronizada, a medição da atividade de DAO nas fezes poderia teoricamente refletir a atividade enzimática na mucosa intestinal. No entanto, é um exame com pouca validação clínica e não é rotineiramente utilizado.

O teste terapêutico com uma dieta de baixo teor de histamina, seguido por uma reintrodução controlada de alimentos, continua sendo um pilar fundamental para o diagnóstico da IH, especialmente quando os exames bioquímicos não são conclusivos.

Fatores Contribuintes para a Intolerância à Histamina



A intolerância à histamina raramente é causada por um único fator isolado. Mais frequentemente, é o resultado de uma interação complexa de predisposições genéticas, hábitos alimentares, e o estado da microbiota intestinal. Compreender esses elementos é crucial para uma abordagem terapêutica eficaz.

Fatores Genéticos



Polimorfismos genéticos nas enzimas envolvidas no metabolismo da histamina são reconhecidos como um fator de risco significativo para a IH. As variações mais estudadas incluem:

Polimorfismos no gene DAO (AOC1): O gene que codifica a diamina oxidase (DAO) apresenta diversos polimorfismos de nucleotídeo único (SNPs). Alguns

desses SNPs, como rs10156191 e rs1049742, têm sido associados a uma redução na atividade ou expressão da enzima DAO, resultando em menor capacidade de

degradação da histamina exógena e intraluminal. Indivíduos com esses



polimorfismos podem ter uma predisposição genética para desenvolver IH, mesmo com uma ingestão moderada de histamina.

Polimorfismos no gene HNMT: O gene que codifica a histamina-N-



metiltransferase (HNMT) também possui SNPs, como o rs11569233 (T>C), que podem levar a uma diminuição da atividade da HNMT. Isso compromete a via de

degradação da histamina endógena, especialmente em tecidos ricos nessa enzima, como o sistema nervoso central e os brônquios. Essa deficiência pode exacerbar sintomas neurológicos e respiratórios em indivíduos com IH.

A identificação desses polimorfismos através de testes genéticos pode ajudar a confirmar uma predisposição e orientar intervenções personalizadas.

Alimentação e Histamina



A dieta desempenha um papel central na gestão da intolerância à histamina.



Muitos alimentos contêm quantidades significativas de histamina, enquanto outros são capazes de induzir a liberação de histamina endógena dos mastócitos.

A ingestão excessiva desses alimentos em indivíduos com baixa capacidade de degradação pode precipitar os sintomas.

Alimentos ricos em histamina: São tipicamente alimentos fermentados ou envelhecidos, onde a ação de microrganismos resulta na conversão de histidina em histamina. Exemplos incluem:

Queijos envelhecidos



Embutidos (salame, presunto cru)



Vinhos e cervejas (especialmente tintos e artesanais)



Peixes enlatados ou defumados (atum, sardinha, arenque)



Alimentos fermentados (chucrute, kombucha, iogurte – embora o iogurte também possa conter cepas benéficas que degradam histamina, é um ponto controverso)

Tomates, berinjelas, espinafre, abacate, frutas cítricas (quantidades variáveis)



Alimentos liberadores de histamina: Não contêm grandes quantidades de histamina, mas estimulam a liberação de histamina dos mastócitos no corpo. Exemplos incluem:

Morango, framboesa, frutas cítricas



Chocolate



Clara de ovo



Nozes



Aditivos alimentares (tartrazina, benzoatos)



Certos medicamentos (opioides, relaxantes musculares, alguns anti- inflamatórios não esteroidais – AINEs)

A adoção de uma dieta de baixo teor de histamina é a principal estratégia de manejo, devendo ser supervisionada por um profissional para garantir a

adequação nutricional e evitar restrições desnecessárias.



Disbiose Intestinal e Sua Relação



A disbiose intestinal, um desequilíbrio na composição e função da microbiota do trato gastrointestinal, é um fator crucial na patogênese da intolerância à

histamina. O intestino é a principal fonte de DAO no corpo, e a saúde da mucosa intestinal é fundamental para a sua produção e atividade.

Produção de histamina pela microbiota: Algumas espécies de bactérias intestinais possuem a enzima histidina descarboxilase (HDC) e são capazes de converter L-histidina (presente na dieta e nas secreções intestinais) em histamina.

Um supercrescimento de bactérias produtoras de histamina (ex: Morganella morganii, Klebsiella pneumoniae, Enterobacter aerogenes) pode aumentar

significativamente a carga de histamina no lúmen intestinal, sobrecarregando a capacidade de degradação da DAO.

Dano à barreira intestinal: A inflamação crônica e o aumento da



permeabilidade intestinal (“leaky gut”) frequentemente associados à disbiose



podem comprometer a integridade da mucosa intestinal e, consequentemente, a produção e liberação de DAO para o lúmen. Além disso, uma barreira comprometida permite que mais histamina intestinal seja absorvida para a circulação sistêmica.

Síndrome do Intestino Delgado com Supercrescimento Bacteriano (SIBO): O SIBO é uma forma de disbiose caracterizada pelo supercrescimento de bactérias no intestino delgado. Essas bactérias, que normalmente residem no cólon, podem produzir grandes quantidades de histamina diretamente onde a absorção é mais eficiente, contribuindo significativamente para os sintomas sistêmicos.

Deficiência de cofatores: A atividade da DAO depende de cofatores como vitamina B6, vitamina C e cobre. A disbiose pode afetar a absorção ou a síntese desses nutrientes, comprometendo indiretamente a função da DAO.

A modulação da microbiota intestinal através de dietas específicas, probióticos (com cepas que degradam histamina, como Bifidobacterium longum ou Lactobacillus plantarum, ou que não a produzem), prebióticos e, em alguns casos, antibióticos, pode ser uma estratégia terapêutica eficaz para restaurar o equilíbrio e reduzir a carga de histamina.

Antialérgicos e Intolerância à Histamina: Uma Relação Complexa



O uso frequente de anti-histamínicos pode gerar consequências para a intolerância à histamina, embora a relação não seja de causa direta no sentido de


- ??criar” a intolerância. É mais uma questão de mascaramento e, potencialmente, de um ciclo vicioso:

Mascaramento de Sintomas: Anti-histamínicos (especialmente os de primeira e segunda geração, que bloqueiam os receptores H1 da histamina) são eficazes em aliviar muitos dos sintomas associados ao excesso de histamina (como

prurido, rinite, urticária). No entanto, eles não atuam na causa raiz do acúmulo de histamina, ou seja, na deficiência de enzimas de degradação (DAO ou HNMT) ou no excesso de produção/ingestão. Ao aliviar os sintomas, o paciente e o médico

podem deixar de investigar a origem do problema, prolongando a exposição a fatores que contribuem para a intolerância.

Potencial sobrecarga enzimática: Embora não haja evidências diretas de que anti-histamínicos esgotem as enzimas DAO ou HNMT, o uso contínuo pode levar a uma dependência na inibição dos receptores, sem que o corpo melhore sua capacidade intrínseca de metabolizar a histamina. Isso pode resultar em uma “recidiva” de sintomas mais intensos quando o uso do medicamento é interrompido, já que o problema subjacente nunca foi corrigido.

Impacto na microbiota: Alguns estudos sugerem que certos medicamentos



podem influenciar a microbiota intestinal. Embora os anti-histamínicos não sejam os principais culpados, uma disbiose, que já é um fator importante na IH, poderia ser perpetuada indiretamente.

O uso de anti-histamínicos é uma medida sintomática importante. Contudo, se o paciente apresenta sintomas que sugerem intolerância à histamina e depende constantemente desses medicamentos, é crucial investigar as causas

subjacentes para evitar uma abordagem puramente paliativa.



A Perspectiva da Medicina na Intolerância à Histamina



A medicina ao adotar uma visão ampla e integral do paciente, buscando entender a interconexão entre os diversos sistemas do corpo, metabolismo e a influência

do estilo de vida, ambiente e genética na saúde. Sob esse ponto de vista, a intolerância à histamina é um diagnóstico de extrema importância por várias razões:

Identificação de Causas Raiz: A avaliação ampla do paciente, ao não se contentar em apenas tratar o sintoma (por exemplo, a rinite ou a dor de cabeça), mas a busca a causa fundamental do desequilíbrio é fundamental na avaliação da IH. Isso significa investigar deficiências enzimáticas (DAO/HNMT),

supercrescimento bacteriano no intestino, inflamação crônica, deficiências nutricionais (cofatores como B6, C, cobre), e estresse.

Abordagem Multissistêmica: A IH é uma condição multissistêmica. A medicina vista em um contexto global do paciente é fundamental para gerenciá-la, pois

permite abordar simultaneamente as manifestações gastrointestinais, cutâneas, neurológicas e respiratórias, reconhecendo que todas podem ter a mesma origem comum: o excesso de histamina.

Nutrição como Terapia: A dieta é uma ferramenta terapêutica poderosa na IH. A medicina integrada a nutrição personalizada, orientando o paciente sobre

alimentos ricos em histamina, liberadores de histamina e, crucialmente, fornecendo estratégias para otimizar a saúde intestinal e fornecer os cofatores necessários para as enzimas de degradação.

Modulação da Microbiota Intestinal: A saúde intestinal é um pilar da medicina personalizada. Na IH, abordar a disbiose intestinal através de probióticos,

prebióticos e intervenções dietéticas específicas é fundamental, pois uma



microbiota desequilibrada pode ser tanto uma fonte de histamina quanto um fator que compromete a produção de DAO.

Otimização de Fatores de Estilo de Vida: Estresse, sono inadequado e baixa atividade física podem influenciar a resposta inflamatória e a saúde intestinal, impactando indiretamente a tolerância à histamina.

Prevenção de Cronicidade: Ao identificar e tratar a IH precocemente, a



medicina pode prevenir a progressão para condições crônicas mais graves ou a



persistência de sintomas debilitantes, melhorando significativamente a qualidade de vida do paciente a longo prazo.

Relação da Intolerância à Histamina com Rinite, Inflamação Intestinal e Problemas Gástricos



Existe uma forte relação entre a intolerância à histamina e diversas condições inflamatórias, especialmente as que afetam as mucosas:

Rinite Frequente: Uma rinite frequente, especialmente a rinite não alérgica (ou vasomotora), pode ter uma forte relação com a intolerância à histamina. A histamina é um potente vasodilatador e causa aumento da permeabilidade vascular. Níveis elevados de histamina na mucosa nasal, seja por ingestão de alimentos ricos em histamina, por liberação de mastócitos sensíveis ou por

deficiência de degradação, podem levar à congestão nasal crônica, espirros, coriza e prurido, mimetizando uma alergia comum. Diferentemente da rinite alérgica clássica (mediada por IgE), a rinite associada à IH não apresentaria sensibilização a alérgenos específicos nos testes.

Inflamação Intestinal: A relação é bidirecional e crucial. A inflamação intestinal crônica, como na Doença de Crohn, Retocolite Ulcerativa ou mesmo na Síndrome

do Intestino Irritável com componente inflamatório, pode reduzir a produção de DAO pelas células da mucosa intestinal. Essa redução compromete a capacidade de degradar a histamina localmente, exacerbando os sintomas gastrointestinais e contribuindo para a absorção sistêmica de histamina. Por outro lado, o excesso de histamina pode agravar a inflamação, pois a histamina é um mediador pró- inflamatório, estimulando a liberação de outras citocinas e perpetuando o ciclo inflamatório.

Problemas Gástricos e Intestinais: A dispepsia funcional, síndrome do intestino irritável (SII), refluxo gastroesofágico (DRGE) e até mesmo doença inflamatória intestinal (DII) podem estar intimamente relacionadas à intolerância à histamina.

DRGE: Embora a histamina (via H2) estimule a secreção de ácido gástrico, o excesso de histamina pode levar a uma desregulação da motilidade esofágica e gástrica, além de aumentar a sensibilidade visceral, contribuindo para os sintomas de refluxo e dor epigástrica.

SII: Muitos pacientes com SII, especialmente o tipo diarreia-predominante (SII- D), apresentam níveis aumentados de histamina em biópsias de mucosa intestinal e menor atividade de DAO. Os sintomas de dor abdominal, inchaço e alterações do trânsito intestinal são classicamente associados à histamina.

Supercrescimento Bacteriano do Intestino Delgado (SIBO): Como



mencionado no artigo, o SIBO é uma causa comum de sintomas gastrointestinais e pode ser um grande produtor de histamina, sobrecarregando o sistema e levando à IH.

A Influência da Histamina na Inflamação Crônica



A histamina desempenha um papel paradoxal e complexo na inflamação crônica, atuando tanto como um mediador pró-inflamatório quanto, em certas condições, como um modulador da resposta imune. No contexto da intolerância à histamina e seu acúmulo, sua influência é predominantemente pró-inflamatória:

Ativação de Células Imunes: A histamina, especialmente via receptores H1 e H4, pode ativar diversas células imunes, como mastócitos, eosinófilos, neutrófilos, macrófagos e células T. Essa ativação leva à liberação de outras citocinas pró-inflamatórias (como TNF-alfa, IL-1, IL-6), quimiocinas e mediadores lipídicos (leucotrienos, prostaglandinas), amplificando a cascata inflamatória.

Aumento da Permeabilidade Vascular: A histamina promove a vasodilatação e o aumento da permeabilidade dos vasos sanguíneos, permitindo que células

imunes e mediadores inflamatórios acessem mais facilmente o tecido inflamado.



Embora útil em uma resposta aguda, em situações crônicas, isso contribui para o edema persistente e a infiltração de células inflamatórias.

Estímulo da Fibrose: Em alguns contextos, a histamina pode estimular a proliferação de fibroblastos e a síntese de colágeno, contribuindo para processos de fibrose em órgãos como os pulmões (asma crônica) e o intestino.

Dano Tecidual: O acúmulo prolongado de histamina e a consequente ativação inflamatória podem levar a danos teciduais diretos e à remodelação de órgãos, como observado na asma e em certas condições gastrointestinais.

Sensibilização de Nociceptores: A histamina contribui para a dor inflamatória crônica ao sensibilizar terminações nervosas, exacerbando sintomas como dores de cabeça e dor abdominal.

Em pacientes com intolerância à histamina, o excesso crônico de histamina atua como um “combustível” para a inflamação de baixo grau, perpetuando sintomas em múltiplos sistemas e tornando o paciente mais propenso a diversas condições inflamatórias crônicas. Tratar a intolerância à histamina, portanto, não é apenas aliviar sintomas, mas também abordar um importante motor da inflamação.

Conclusão



A intolerância à histamina é uma condição complexa e multifatorial que exige uma abordagem diagnóstica e terapêutica abrangente. A compreensão aprofundada da bioquímica da histamina, incluindo suas vias de síntese, receptores e,

fundamentalmente, suas vias de degradação pela DAO e HNMT, é essencial para o médico. Os sintomas variados e inespecíficos tornam o diagnóstico desafiador, necessitando de uma anamnese detalhada, a exclusão de outras condições e o uso criterioso de exames bioquímicos de sangue, urina e fezes para auxiliar na investigação.

A identificação de fatores genéticos predisponentes, a avaliação da dieta do paciente e a investigação de disbiose intestinal são pilares para desvendar a causa subjacente da IH. Ao abordar esses múltiplos fatores, seja através de uma dieta de baixo teor de histamina, suplementação de DAO, suporte aos cofatores enzimáticos ou estratégias para modular a microbiota intestinal, os médicos

podem oferecer alívio significativo aos pacientes e melhorar sua qualidade de vida. A intolerância à histamina representa um campo crescente de interesse na medicina funcional e integrativa, e a contínua pesquisa sobre seus mecanismos e manejo promete avanços que beneficiarão muitos indivíduos cronicamente sintomáticos.


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Sobre o Dr. João Ricardo



Dr. João Ricardo Magalhães Gonçalves é especialista em exames laboratoriais, metabolismo e genética. CEO do Laboratório João Paulo, autor de livros médicos e conselheiro de empresas na área da saúde.

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